quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Homem de Hoje diante de Jesus de Nazaré
Sinóticos e Paulo História e Atualidades
Biografia
Juan Luis Segundo nasceu em Montevidéu em 31 de outubro de 1925, foi um padre jesuíta, é uma das figuras mais importantes na tradição da América Latina a Teologia da Libertação. Ele foi um dos fundadores da teologia da libertação latino-americana, em 1941 ingressou na Companhia de Jesus, fazendo seus votos religiosos, e os primeiros passos da formação sacerdotal, em Córdoba (Argentina).
Entre 1946 e 1948 estudou filosofia no seminário de San Miguel, também na Argentina, em 1952 ele fez um ano de estudos em teologia no seminário, que completou na Faculdade de Teologia Santo Alberto em Louvain, Bélgica (onde foi companheiro do sacerdote peruano Gustavo Gutiérrez), obtendo a sua licenciatura em 1958 com a tese "O cristianismo, uma utopia?
Enquanto isso, ele foi ordenado sacerdote em 1955.
lecionou em vários países latino-americanos e as universidades de Harvard, Chicago e Birmingham.
Em seu livro pretende mostrar o homem moderno, crente ou não, a liberdade radical encontrou em Jesus.
Entre seus trabalhos incluem teologia aberta para um laicado adulto (1967-1972), o homem moderno a Jesus de Nazaré (1982) e O dogma que liberta. Fé, revelação e magistério dogmático (1989).
Pregar a cruz de Jesus, hoje isto implicaria em realizar uma pratica comprometida com, amor, solidariedade, justiça nas famílias, nas escolas, nos sistemas econômicos, e nas relações políticas. Só que este engajamento nesta causa nos leva a crises, confrontos, sofrimentos, cruzes.
Assim como foi com Cristo, será para todo aquele que quiser carregar esta cruz, vivenciar de fato este evangelho do reino, que significa modificar este sistema opressor e político contra os menos desfavorecidos, o sistema diz o seguinte que os que assumem as causas dos menos desfavorecidos são subversivos, traidores, inimigo dos homens, (amaldiçoados pela religião e abandonados por Deus), “Maldito o que morrer na Cruz”.
Libertar Jesus das cristologias que o aprisionam supõe a tarefa incessante de criar “evangelhos” que sejam, efetivamente, boas noticia para nossos contemporâneos, sem deixar por isso de verificar sua coerência com o evangelho pregado historicamente por Jesus de Nazaré.
Juan não quer falar ao homem de hoje, de um Jesus que nunca existiu, nem inventar um Jesus, mas que dar a importância devida, aos evangelhos a partir dos sinóticos e realmente ver a sua importância nas escrituras, e a sua veracidade histórica, ex: (como se fosse assim o que realmente Jesus disse ou foi os autores dos evangelhos que disseram posteriormente para seus próprios interesses).
Apesar de todos os escritos do novo testamento ser já interpretações de um Jesus procedente somente de uma fé, não temos nenhum documento histórico, no sentido que damos a este termo, os documento que mais se aproximam é os três evangelhos chamados sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas.
E dentre estes sinóticos o que realmente parece que andou com Jesus foi somente Mateus, os outros dois não fizeram parte do grupo dos doze, é bom lembrar que segundo “Juan”, não foi o Mateus que andou com Jesus que realmente escreveu o livro.
Segundo Juan o primeiro critério que usa para estudar os sinóticos e o pré-pascal e o pós-pascal sendo que este ultimo se introduz no pré-pascal, e a interpretação que se tem é que o pós-pascal matiza (ou seja, dá outras versões ao pré-pascal), os acontecimentos que antecederam a páscoa.
Não é que se vai menosprezar com este critério parte dos sinóticos, mas vai fazer um analise critico histórico dos sinóticos.
A interpretação pós-pascal matiza inconscientemente, os acontecimentos que precederam a páscoa. Não é estranho, portanto, que a historiografia moderna (posta a serviço da exegese e da teologia) tente resgatar e preservar, na medida do possível, o pré-pascal tal como foi, sem essas irrupções de sentido feitas a parti do desenlace conhecido posteriormente e projetado sobre a memória do anterior.
Como se carecesse de importância ou veracidade, uma parte dos sinóticos. A interpretação é também fato histórico. Trata-se aqui de achar um critério de “confiabilidade”, ou melhor, da prioridade na fiabilidade dos fatos narrados. “O retrato histórico de Jesus”, “e mesmo das cristologias futuras”, deverá apoiar-se sobre aqueles fatos que forem mais seguros e avançar a partir desse núcleo. E, logicamente, aparece como mais certo, a partir do testemunho evangélico mesmo, aquilo que se tem atribuído a Jesus sem referência a sua paixão, morte e ressurreição, talvez o uso mais óbvio deste critério corresponda a predições supostamente feitas por Jesus, elas poderiam ser ex eventu, como se diz em exegese, quer dizer postas em sua boca depois de se efetuarem os acontecimentos em questão e conhecidos posteriormente pelos evangelistas.
Por exemplo, os que concernem à ruína de Jerusalém, se tiverem em conta que, segundo toda probabilidade, pelo menos dois dos sinóticos – Mateus e Lucas – foram redigidos depois dessa destruição pelos romanos no ano setenta, sentimo-nos mais seguros diante de uma exclamação vaga de Jesus como aquela que Mateus e Lucas conservaram (e que faria parte de Q, a fonte comum a ambos): “Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedrejas os que te são enviados!... “Vossa casa ficara deserta”, (Mt. 23. 37-38; Lc. 13. 34-35).
Já indicamos o que é extraordinário – e precisa de explicação – o fato de que um homem comum, sem autoridade alguma, interesse, apaixone com sua mensagem seus contemporâneos, é verdade que bem entendida, como cuidaremos de mostrar em capítulos seguintes, a pregação de Jesus tocava em pontos mais concretos da situação econômica, social e política de Israel de seu tempo. Mas isto não basta para desencadear um movimento da amplitude perigosa que foi a partir de Jesus. Temos que acrescentar, então, que existiam expectativas em Israel, que, de certo modo, convergia com esta pregação e que ajudaram a lhe dar destaque.
Na época existiam as vagas expectativa messiânicas do A. T. que permeavam o povo e isto contribui-o para que os evangelistas convergissem para Jesus depois da páscoa, isto não quer dizer que Jesus tenha sido reconhecido por seus discípulos, ou mesmo pela multidão, segundo estas quatro linhas de interpretações.
Que seriam estas:
O profeta dos últimos tempos, (ou profeta escatológico: um novo Moises ou Elias retornado a terra) Mt. 17. 12-13 “Mas eu vos digo: Elias já veio e não reconheceram. Ao contrario, fizeram com ele o que quiseram. Do mesmo modo o filho do homem vai sofrer nas mãos deles”.
A categoria do filho de Davi ou Rei de Israel é assumido por Jesus implicitamente, quando, movido pelos gritos do cego: “Jesus filho de Davi tem misericórdia de mim!”, ele o cura e lhe diz: “Vá, a fé te salvou” (Mc. 10. 47 – 48 e 52).
O servo (sofredor) de Javé, Lucas, narrando os episódios ocorridos na sinagoga de Nazaré, nos diz que Jesus, abrindo a profecia de Isaias, leu a passagem onde dizia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para anunciar os aprisionados a libertação, aos cegos à recuperação da vista, para pôr em liberdade os oprimidos, e para anunciar um ano de graça do Senhor”. E começou a falar, “hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir”, (Lc. 4. 17 – 21). Esta passagem de Isaias (61. 1 – 2), é citadas para as passagens messiânica do servo sofredor de Javé entre outras (Is. 42. 1 – 2).
Finalmente de acordo com os sinóticos e mesmo com João, Jesus se chama a si mesmo continuamente “Filho do Homem” o que equivaleria a assumir as esperanças depositadas nas profecias de Daniel (7. 13 – 14), a respeito de um personagem que, “como um filho do homem, vinha vindo com as nuvens do céu”, para adquirir um reino eterno.
Os evangelhos não só mostram que Jesus foi interpretado segundo estas quatro linhas de esperanças messiânicas, mas mostram que ele mesmo aplicou a si tais categorias ou teria deixado que lhe fossem aplicadas.
O segundo critério histórico que nos serve para determinar o mais digno de fé nos documentos que possuímos com respeito a Jesus tem também uma certa relação com o primeiro que distinguia o pré do pós-pascal. Só que aqui trataremos de distinguir o pré-eclesial do pós-eclesial.
Os evangelistas escreveram para a Igreja cristã ou as Igrejas cristãs?
E estas constituem um fato pós-pascal. Jesus, entretanto, fala e atua em outro contexto. Se ele tenta formar seus discípulos, é mais para que compreendam do que para solucionar problemas dessa “comunidade” que ainda, falando com rigor, não existe.
E isto, independentemente da questão suscitada por historiadores exegetas ou teólogos que é saber se Jesus pensou ou não em fundar uma comunidade organizada que o sucedesse em sua missão.
Por outro lado, o fato de que uma boa parte do que hoje temos nos evangelhos tenha sido tirado do seu contexto primitivo e dirigido as Igrejas contemporâneas dos evangelistas, a seus membros, autoridades e problemas, parece evidente.
E com isso, a necessidade cientifica de distinguir o contextual em seus dois aspectos: o contexto eclesial e o que a ele se deve por uma parte, e o contexto religioso, social, econômico e político de Jesus e as coisas que ou vêm dele ou deveriam ser interpretados em função dele.
Esta claro que a fiabilidade histórica vai para este ultimo contexto (o mais primitivo). Mas, justamente o estar consciente da influência do primeiro levará a descobrir o segundo
O contexto eclesial è muito claro, por exemplo, no evangelho de João Todos sabemos que os acontecimentos, no quarto evangelho são colocados e escolhidos em virtude da lógica de certo simbolismo, o que não quer dizer que não tenham acontecido. Símbolos como a água o pão a luz a videira são centrais para compreender as preferências e a estrutura da memória do evangelista, mas pareceria que, além do seu simbolismo natural, por assim dizer - e da relação deste simbolismo com as necessidades culturais de uma igreja geograficamente situada-, a maioria desses símbolos têm, num projeto mais esotérico do redator do quarto evangelho, um segundo plano, sacramental.
Em outras palavras, à diferença de um leitor pagão que entenderia já perfeitamente o texto, o leitor cristão do evangelho de João faria mais outra leitura, a partir do interior da sua vida eclesial. Assim, ainda que observe que o simbolismo do pão é a vida que a Fé procura, não poderá deixar de associar o símbolo “pão” com a eucaristia que ele celebra na comunidade eclesial. E o evangelista arranja as coisas de tal maneira para que também esta leitura tenha sentido.
Nos sinóticos, a presença deste contexto eclesial no texto evangélico é menos consciente e voluntaria e também, portanto, mai sutil e difícil de detectar.
Dodd e Jeremias, entre outros, mostram, por exemplo, como as parábolas de Jesus foram postas as disposições das necessidades da Igreja depois da páscoa (morte), apesar de que para Jesus quase todas elas são parte de uma polêmica com as atitudes de resistência ao reino que ele encontra em seus interlocutores (fariseus e autoridades religiosas de Israel).
Referimo-nos somente de maneira breve e sumária ao terceiro critério de fiabilidade histórica com respeito a Jesus de Nazaré: critério literário como se sabe, temos em quatro documentos do novo testamento entre outras tantas narrações do ministério publico de Jesus, quer dizer dos fatos que vão desde seu batismo ate sua morte e ressurreição. Em que medida deixam este quatros documentos (evangelhos) aparecer uma historia fidedigna de Jesus, ou, em outras palavras dão acesso ao Jesus histórico?
Por uma parte, é certo que nenhum desses quatro documentos é uma obra de historia, no sentido moderno e científico da palavra. Nenhum dos quatro pretende ocultar que essas narrações veiculam uma compreensão de Jesus unida estreitamente à fé nele, fé que pretendem explicitamente transmitir. Por outra parte, isto não faz com que os dados que nos proporcionam sejam falsos ou pouco verdadeiros. Isso nos obriga sim, a tomar as precauções que temos mencionado nos critérios estudados ate aqui para chegar mais perto do que realmente aconteceu com Jesus de Nazaré.
Destes quatro documentos se destaca um (o quarto evangelho) ou evangelho de João, como particularmente distante do que hoje consideraríamos uma narração fiável. Seu redator se estende principalmente em acontecimentos que as outras três narrações inexplicavelmente ignoram, como, por exemplo, a ressurreição de Lázaro, personagem conhecido em Jerusalém, fato que teria influído posteriormente no aprisionamento e na morte de Jesus.
No começo deste volume víamos que qualquer um que pretender aproximar se do Jesus histórico tem que fazer a si mesmo a pergunta de como um homem, na aparência em nada diferente dos demais (e que não insistiu nunca em seus próprios títulos), começa a interessar e a apaixonar os seus contemporâneos
Pois bem, em nosso mundo limitado é difícil imaginar um apaixonamento, um entusiasmo, um interesse profundo, que não seja, de alguma maneira, conflitivo, este conflito poderá se dar no plano mais abstrato das idéias - combatendo algumas e defendendo outras - ou no mais concreto de interesses de grupos, classe, nações, etc.
Algo que não divide também não entusiasma nem gera militância e compromisso.
Jesus, homem verdadeiro, não pôde escapar a esta lei. Mas não é fácil pôr de acordo neste ponto os documentos neotestamentários que tratam dele.
Assim os evangelistas - inclusive João - nos mostram um Jesus conflitivo no segundo sentido, (pos-pascal) constitui um perigo para certos grupos concretos de pessoas. Isso concorda com sua própria declaração: “não penseis que vim trazer a paz a terra, não vim trazer a paz, e sim a espada (Lc divisão). Pois vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. Os inimigos da gente serão os próprios parentes”(Mt 10,34: cf. Lc 12,51-53)
E certamente quando lemos os evangelhos libertados da imagem pré-fabricada do “doce Jesus de Nazaré”, nos encontramos a cada passo com um conflito consciente e voluntário entre grupos perfeitamente determinados, conflito que, não demora muito para levar ao assassinato jurídico de Jesus.
O HOMEM DE HOJE DIANTE DE JESUS DE NAZARÉ II/I
Sinóticos e Paulo história e atualidades


CAP 3 – A proximidade do Reino

Pretendendo apagar de antemão um mal entendido hermenêutico entre ou “político ou religioso”, Juan Luis Segundo, aborda neste capítulo analises ideológicas do Jesus histórico enquanto a sua trajetória percorrida na terra e faz questionamentos interessantes: “Como foi que um homem comum, sem autoridade religiosa alguma começou a interessar a seus contemporâneos”? Isso sem pregar a si mesmo, e “como passou através da poderosa e complexa estrutura religiosa?”.

Jesus com o seu discurso, afeta concretamente a vida do homem, fazendo com que houvesse um fim político e não aparentemente a fundação de uma religião, havendo em suas palavras, sem dúvida nenhuma, profundas sugestões políticas, anunciando mensagem religiosa em forma de chave política e dessa forma manifesta a Deus. Quanto mais políticas de mudanças se revelavam, toda afinidade com acondicionamento morais, espirituais ou religiosas fossem desprendidas dos grupos humanos tornavam-nos mais religiosos.

São com estas duas hipóteses que Juan Luis trabalha ao interpretar a mensagem global de Jesus de Nazaré referente ao que consiste este “Reino de Deus”, por que e para quem estabelecer uma boa notícia e por que esse “evangelho” (boas novas) exigia mudar de mentalidade. Utiliza-o então dos textos sinóticos a Paulo apresentando uma interpretação sobre as “bem-aventuranças”, tomando como base uma exegese do teólogo de Jaques Dupont (exegeta francês). Primeiro Jesus declara a situação das bem-aventuranças para transformar em virtudes e a definir o que consiste esse “Reino de Deus” que chega com a articulação que para os pobres, ele veio para mudar esta situação e por um fim, já que não há humanização nenhuma na pobreza e sim uma relação intrínseca e positiva entre reino e situação do pobre.

Juan Luis também apresenta controvérsias nos textos sinóticos, por um lado sabendo que os textos de Lucas foram escritos para os leitores helenistas diferenciados dos outros sinóticos, sabe-se que na igreja primitiva de Lucas, no livro de Atos, existia a partilha dos bens que nela se praticava, sendo assim não poderia haver necessitados, versão que contrapõe da existência humana: pobreza e riqueza e por outro lado, sendo ainda que a fonte Q, apesar de ser a mais próxima de Jesus do que o atual evangelho, não garante que Jesus tenha pronunciado as bem-aventuranças, além do termo “pobre” ser mais pronunciado pelos cristãos do que por Jesus. Então a quem cabe o direito a este Reino, Já que até os próprios discípulos continuavam explorarados pelas ideologias religiosas e por fazer eles partes deste grupo de “pobres”? Vale ressaltar que neste tempo o “Povo da Terra” (os judeus) tinham uma sociedade hierárquica não segundo a sua fortuna ou poder político, mas segundo critérios religiosos.

Como Jesus não podia pronunciar-se a todos ao mesmo tempo escolhe então anunciar o Reino a quem perdeu tudo, são eles: os publicanos, prostitutas, doentes e aleijados, esses os chamados “pobres” da época, os amaldiçoados e desprezados, os pecadores, não que haja uma unificação de pobre e pecadores, mas, os pobres são pecadores, por ser marginalizados na sociedade de Israel, a estes Jesus vem trazendo para uma realidade os projetos de Deus através da Sua revelação, com isso acontece uma mudança político-social-religiosa simultaneamente com a estratégia política do Reino correspondendo a uma nova notícia de Deus no caráter religioso contra a exploração do seu povo.


CAP 4 – As Exigência do Reino
I – Conversão e Hermenêutica

Com a imanência do “Reino de Deus”, Jesus estabelece 03 (três) grupos: os “pobres”, ou grupo destinado a receber as boas-novas, ou seja, os convidados naturais; os que ficam na sua companhia para enviar e pregar as boas novas (os discípulos). Com isso à estratégia libertadora, política e conflitiva de Jesus cria-se um terceiro grupo, os que não se levam à compaixão, os opositores, aqueles aprisionados ao mecanismo ativo da opressão e que devem receber o reino com “ai” (os ricos, os justos e representantes religiosos). Para encontrar o significado da mudança de mentalidade ou “conversão”, que de acordo com Juan Luis segundo está representada nas polêmicas (parábolas) de Jesus, - que para Joachim Jeremias reconhece é 38 - existe a necessidade lógica para compreensão das exigências em possuir este reino. A interpretação é que a boa noticia da chegada do reino não é o evangelho para todos e sim para o grupo dos pobres e mostra ao mesmo tempo, com todas as dúvidas que isso traz consigo a preferência que tem por eles, por um lado, e as profundas correções que deseja introduzir, por outro, na maneira que eles têm de idealizar a Deus e a religião.

Na definição de Juan Luis, Jesus utiliza-se de parábolas para legitimar seus ataques e defesas dos que se opõe ao reino: O primeiro grupo de parábolas inicia-se com prevenção da chegada repentina do definitivo e destrói caluniosas garantias designada por uma elite social, econômica e política que exerce forte controle sobre o conjunto da sociedade, de acordo com a interpretação dos textos sinóticos de Lucas como as parábolas do rico insensato e do administrador infiel e a outra conflitiva político-religiosa do ladrão noturno em Mateus. O segundo grupo coloca as bem-aventuranças entre uma oposição com o primeiro grupo, ou seja, por se acreditar garantido pelo reino e coeso pelos que se tinham excluídos da pobreza, os marginalizados de Israel (pecadores), Jesus não os idealiza se são bons ou maus, mas suas parábolas os generalizam. Há citações de várias parábolas para como a do banquete, onde “todos” são convidados a sentarem-se a mesa; a do filho pródigo, na qual o pai estava a aguardar a volta do filho que estava perdido e a da ovelha, que o pastor vai ao seu encontro, escrito nos sinóticos, despertando uma intensão de conflitos entre esses grupos e estabelecendo para quem o reino se faz presente, para os que sofrem e estão perdidos. Juan Luis Segundo tem como base os textos de Lc 15:7 e Mat 18:13 “a alegria no céu será maior por um pecador que se converta do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão”, ou seja, o estado de “estar perdido” é a causa suficiente para a alegria paterna. Jesus é radical, mas restringi-se a mostrar dois grupos opostos e não detecta ainda o mecanismo como um grupo oprime o outro. O terceiro grupo de parábolas é qualificado por inverso do juízo de valores dos dois campos que divide Israel: justos e pecadores e é ilustrada através das parábolas de Mateus (21:28-32) sobre os dois filhos, onde o primeiro representa os pecadores, que mesmo rejeitando a ordem do pai as cumpre o e segundo filho representando os justos que mesmo dando vontade de obedecer descumpre a ordem paterna. O que se vê é um paradoxo de quem na verdade é justo ou pecador. Outra polêmica está no anúncio de Lucas 4:19 numa analogia do “ano da graça do senhor” com as “bem-aventuranças” onde relata a divisão por igual dos bens e da liberdade a cada cinqüenta anos entre todos os israelitas, recobrindo assim suas possibilidades humanas, porém a isso legitima a opressão penetrando inclusive nas mentes dos oprimidos, fazendo com que o resultado da divisão do trabalho seja atribuída a opressores e oprimidos como virtude de Deus, mas o Deus de Jesus não sente assim as coisas. Com efeito, aparece o critério com que Deus julga o que é pecado: não o contrario a lei, mas o contrario ao homem (pág. 197). É a preocupação e compaixão pelo homem, e em especial pelo que sofre que Jesus estabelece a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Para isso Jesus indica um aparato para destruição ideológica do opressor representado no quarto grupo de parábolas que versa sobre a chave hermenêutica, onde consiste para Jesus entender o homem e pôr a sua plena humanização para que agora o homem possa compreender que a conversão (necessidade da mudança de mentalidade) é fundamental para aqueles que receberam as boas notícias e que não passa de privilégio e sim de responsabilidade, “deixa de se crer fim para se sentir meio”. Juan Luis segundo descreve que para combater uma interpretação radicalmente errônea é preciso se endereçar as três primeiras parábolas, a dos talentos, em Q (Mt 25:14-30; Lc 19:12-27), a do sal (Mc 9:50; Mt 5:13; Lc 14:34-35) e a figueira de Lucas (Lc 13:6-9). As três têm um elemento comum: a importância não está nunca nas coisas em si, no que pode ser objeto de posse, e sim numa funcionalidade, num fruto que dela se espera. Para isso a parábola de Jesus escrito no livro de Lucas sobre o Samaritano, o Levita e o Sacerdote que ao ver àquele que caiu em poder dos ladrões é muito bem apresentada como o mais importante do que aquele que a quem se deve amar é aquele em que ama de verdade. A proximidade (sentido da frase do original “amar o próximo”) não é conseqüência da lei e sim premissa, consistente em uma inclusão mútua entre pessoas ou grupos, Jesus então estabelece uma radical mudança de mentalidade no sistemático ideológico religioso opressor introduzindo não só que as tradições legalistas substituíram os fidedignos mandamentos de Deus, mas que até estes não estabelecem a vontade de Deus geradora de valores morais. Deus não alcança ao homem com receitas morais pré-estabelecidas, ou seja, só quem tem intenções baseados no amor entende corretamente o sentido benéfico dos mandamentos a fim de converter suas vítimas em sujeitos conscientes e ativos na luta.


CAP 5 – As Exigência do Reino
II – Profetismo e Conscientização

A multiplicidade e a maneira indefinida do que se esconde sob o título da construção do “Reino de Deus”, faz com que exista uma contradição entre duas leis. Os pobres e pecadores são convidados por Jesus a fazerem parte do seu discipulado, já que o reino lhes pertence, em contra partida recebem um julgo mais leve, ou seja, estarão agora sob a lei de Jesus, confrontando com “o que diz na lei” dos escribas e fariseus, tornado com isso uma exigência muito mais pesada: “eu, porém vos digo”. Por este motivo os três sinóticos oferecem depoimentos evidentes de um conflito político-religioso que opõe Jesus e os pecadores das autoridades judaicas.

Fazendo uma exegese dos textos de Marcos, Juan Luis abre hipóteses de discursão ao referir-se aos grupos já citados anteriormente. Primeiramente discursa sobre os chamados oprimidos e pecadores (povo) e deles nada são exigidos, diferente do grupo dos opressores. Conseguinte o outro grupo dos oprimidos e pecadores, agora colaboradores (os discípulos), Ele exigirá o que a missão sugere: qualidades proféticas com toda prudência e compreensão. Porém o medo de Jesus é que seus discípulos não entendam as idéias de oposição Dele ou entendam apenas como religiosas, por este motivo Jesus oferece aos discípulos a parábola do semeador e do fermento (dado somente aos discípulos), encontrados nos sinóticos em chave política, já que esse era o meio utilizado por Jesus para o grupo de opositores do reino para que não se convertessem e fossem perdoados, sendo que os discípulos não necessitavam de conversão e sim abrir aos olhos para compreender o segredo do Reino. Neste ponto é indispensável ressaltar que, Jesus não estava dando aula de religião e sim desmascarando um conflito que se aparentava ser religioso pelos seus opositores que visavam dominar e explorar outros homens, Juan Luis Segundo cita a obra de Joachim Jeremias (Lês Paraboles”, pág. 16).

Jesus prepara a chegada do reino utilizando dois elementos na atividade em respeito aos pobres: com prodígio e métodos em instruir e praticar com clareza sua missão. Usou de poderes de modo muito especial para com os pobres e necessitados para anunciar de modo fidedigno a presença do reino de Deus, mas não sua vinda propriamente dita do reino e sim seu anúncio em forma de sinais. Sinais estes que tem uma coerência entre valores do reino que chega e os valores que visivelmente procuram os interlocutores, prováveis adversários de Jesus, com os milagres que eles solicitam, para que assim apareça na qualidade significativa o elemento decisivo na relação existente entre Jesus dos milagres e os pobres que é o segredo messiânico, ou seja, está mais relacionado com o trabalho de conscientização através dos milagres do que uma dúvida na consciência que Jesus tem de si mesma. Os sinais do reino são benefícios reais, incontestáveis enquanto tais para o que recebem. O segundo elemento é apresentado de forma a instruir as suas parábolas e Jesus mediante ao método messiânico pretende manter distância para poder ensinar e mostrar que ele é o sinal de alegria para as multidões de Israel.


CAP 6 – A VINDA DO REINO

Neste capítulo Juan Luis Segundo determina com certa prudência dados mais fidedignos de que se dispõem os sinóticos e questiona, será que Jesus não se enganou ao anunciar que o reino de Deus já se tinha iniciado em sua geração? Ou pelo menos é essa a impressão, pois as desgraças continuaram com os “felizes os que...”, enquanto existiam mais famintos e os ricos continuaram a triunfar e multiplicar mais esfomeados até hoje, a menos que se trate de uma prosperidade e fartura ultramundanas. Juan Luis descreve que no livro de Mateus há citações de Jesus usando três expressões diferentes para reino, são eles: “o reino”, “o reino de Deus” ou “o reino dos céus”. O certo é que ao estarmos nesta época de busca pelo Jesus histórico deve-se fazer em excesso de perspectiva, pois nem mesmo a Igreja Primitiva não pode ao que parece fazê-lo de maneira distinta, embora com mesmo sentido.

Tomando esse rumo o autor começa pela aparição de dois personagens, João Batista e Jesus, todavia o primeiro evangelho apresenta discordância entre ambos os profetas no sentido ideológico do que significa concretamente essa proximidade. É o que se vê no contexto de Mateus e Lucas referente ao estilo de vida, onde um não bebe e não come, enquanto o outro é beberrão e comilão. João prega a iminente manifestação visível da ira de Deus e é quem melhor representa a as idéias apocalípticas da época, combinando “Reino de Deus”, juízo e catástrofe cósmica. Já Jesus aparenta sintomas de individualidade na sua pregação de acordo com Mateus 5:2, assim sendo é que a proclamação de Jesus caracteriza-se como de uma alegria, a boa-notícia, relacionando o dia de Javé com a vinda do seu reino. Juan Luis Segundo dispõe de textos no livro de Lucas (3:11, 3:13 e 3:14) que entre os sinóticos é o único com versão detalhada de João Batista referente aos “frutos dignos de uma mudança de mentalidade”, onde é visto com muito mais realismo como descreve a seguir. A multidão: ele sugere a divisão de túnicas e alimentos; Aos publicanos: não exigir mais do que a taxa marcada. A uns soldados: não praticar torturas nem chantagens, contente com seu soldo. Direcionando assim a situação grupal de cada um e a sua conversão central. Conclui-se que Jesus foi muito mais político do que escatológico e era essa a necessidade dos dois grupos de Jesus, a instalação do reino de Javé do que o juízo apocalíptico de João, embora nenhuma imagem da por afirmada a presença atual do reino em forma completa sobre a terra, principalmente se analisar o tempo do verbo das bem-aventuranças, com exceção da primeira, as outras usam o verbo no futuro, além da ausência do verbo “ser” dos originais aramaicos. Por este motivo os homens colaboram com essa vinda e isso é o menos que se pode dizer quanto à intervenção que se exige deles, pois suas necessidades são compreendias no quadro global, porém a pergunta que Juan Luis Segundo faz é: esperou Jesus a chegada, durante sua vida, do reino de Deus com poder? De acordo com Juan Luis, para os exegetas atuais a resposta é afirmativa.

Então baseado em argumentos relaciona a seguir. O primeiro situado nos três sinóticos “Em verdades vos digo: alguns dos presentes não sofrerão a morte até que vejam chegar o reino de Deus” (Mc 9:1); O segundo constituído por um pequeno apocalipse, também dentro dos sinóticos, que aparece com uma pergunta desconcertada dos discípulos pelos sinais e a resposta é: “a vinda do Filho do homem sobre as nuvens com grande poder e majestade” (Mc 13:26), porém os evangelistas acrescentam um paradoxo enigmático que por um lado ninguém sabe, nem os anjos, nem o Filho do homem, mas somente o Pai, o dia e a hora. Por outro, o tempo está tão próximo que Jesus pode dizer que em verdade eu vos digo, não passará esta geração antes que tudo isso aconteça. O terceiro elemento aparece, - ainda que não seja comum aos três sinóticos (pelo fato de Lucas, no intuito de extinguir o que lhe pareça desrespeito, o exclui) - como um grito de surpresa e desorientação com que Jesus morre na cruz: “meu Deu, meu Deus, porque me abandonastes?” (Mc 15:34 e Mat 27:46).

Então conclui Juan Luis que o reino não chegou “com poder” enquanto durava a geração que escutou Jesus profetizar, mas de acordo com Paulo na sua carta aos Romanos, Jesus foi “constituído Filho de Deus com poder, por sua ressurreição dentre os mortos” (Rm 1:4), sendo assim é transparente a admissão que Jesus esperou em vão durante sua vida essa irrupção com poder do reino de Deus, mas comprova que sua comunidade foi compreendendo gradualmente que com sua ressurreição dentre os mortos ela se tinha realizado. Jesus teve um destino humano, concreto e histórico, trabalhou com mãos de homem na construção do reino que empregou para nos revelar o Pai através da iminência concreta trazendo a marca de uma história que não volta atrás.


(7) Anexos da primeira parte
1 - JESUS RESSUSCITADO

Ficando o tema mais concentrado no livro “Cristologia” o vol. II/II desta série, a ressurreição de Jesus constitui um fato verificável da história da Igreja nascente. Porém inserindo no contexto do Jesus histórico, toma-se como instrumento os próprios evangelistas, que partindo da idéia em confiar que os discípulos de Jesus são sinceros ao narrarem terem visto Jesus depois de sua morte. A questão histórica da aparição do Ressuscitado concentra-se de todo relato Paulino, além de João que se une aos sinóticos. Comprova-se que as parábolas atribuídas a Jesus parecem indicar mais um ensinamento e assim estabelecer um novo grau de compreensão alcançado pelos discípulos (Lc 24:45-46). Porém esses têm dificuldades em distinguir Jesus no ressuscitado, prova de que a nova forma material não permitiu reconhece-lo. De fato o gênero literário dos relatos evangélicos das aparições é muito implícito, mas confirmam a fé existente e ai passa de “crer” a “ver”, ou seja, essa fé diante do escândalo da cruz, Jesus aparece ressuscitado, mas somente para aqueles que creram antes da morte de Jesus. É como se ecoasse em novo plano a advertência de Jesus “... convertei-vos e crede na boa-notícia”, apesar de não haver uma só que seja testemunha imparcial. As narrações sobre as aparições de Jesus não são históricas, mas isso não quer dizer que não sejam verdadeiras. Sua verdade é mais que histórica e depende, por isso da fé, é uma verdade sobre a história, pertence ao plano escatológico no qual se julga e verifica o sentido da história vivida. Por isso diz-se que a realidade escatológica toca no ponto da existência histórica dos discípulos, aos lhes proporcionar experiências do resultado de opiniões diferentes que significavam, contra a morte e o nada, os valores pregados e praticados por Jesus. Tangencialmente não estabelece referência alguma a uma diminuição de importância significativa, refere-se, isso sim, ao sutil e oculto de sua entrada histórica.


(8) Anexos da primeira parte
2 - ALGO MAIS SOBRE A CHAVE

Chega o momento, também lógico, em que a chave política parece esgotar-se e apelar a outro tipo de interpretação para dar conta dos fatos. De acordo com os evangelhos, o conflito provocado por Jesus chegou a um ponto em que as forças pareciam tão equilibradas que, tanto um grupo quanto o outro, se temiam ou se previam a vitória do rival, por este motivo, de acordo com a tradução de Lucas (Lc 24:18-21), os discípulos esperavam a liberdade de Israel, se referindo ao poder que Jesus revelava, e isso era demonstrado por Jesus, porém, em favor da compaixão que ele tinha pela multidão para alimentá-los e não para dar estrutura mais estável apesar das incontestáveis urgências que se encontrava em Jesus na sua ação interpretada em chave política apontando muito mais para uma eficácia em longo prazo. Dentro das suposições, é possível que Jesus pensasse ter muito tempo para continuar com sua política conscientizadora a longo prazo em favor dos pobres e do reino; é possível que contasse com uma poderosa intervenção do próprio reino para assegurar esse prazo. É ainda mais provável que fosse surpreendido pelo momento crítico que levou a morte e pelo silêncio de Deus. Não se sabe, mas isso não invalida a chave global do seu ministério, nos obrigando a substituir por outra. O certo é que os numerosos conflitos relatados no livro de Lucas a propósito da Igreja primitiva não se parecem em nada ao conflito gerado, segundo o mesmo Lucas, por Jesus de Nazaré.

Diz-se "ainda" porque esta chave política, de acordo com Juan Luis Segundo, foi à chave de Jesus para dar sentido à sua ação: o Mestre da Galileia entendeu a si mesmo como portador de uma mensagem transformadora da realidade, uma mensagem, portanto, política ("boa nova aos pobres"). Paulo, ao perceber que esta modificação profunda não se produzia, viu-se obrigado a explicitar o conteúdo de sua fé cristã em termos de uma chave antropológica. A mudança que ocorre a partir da ressurreição de Jesus na história afeta em primeiro lugar o ser humano. Esta chave antropológica, pós-pascal, perfila-se a partir da tomada de consciência da escatologia paulina, que torna possíveis e necessárias estas duas afirmações: “o mundo muda” radicalmente para o homem graças a Cristo e o mundo não tem mudado em nada com Cristo. “O Reino já chegou com poder e o Reino não chegará jamais com poder na história”.

O Novo Testamento, incluindo os três sinóticos, mostra que o sentido de Jesus vai em busca de expressões criativas para cada contexto. Seguir Jesus não é sacralizar a ideologia que ele usou e forçar as circunstâncias infinitamente variáveis ao escutar as mesmas palavras e presenciar idênticos acontecimentos. Trata-se de “criar” evangelhos para expressar a fé de Jesus com as ideologias que melhor possam veiculá-las aqui e agora. O NT é o melhor exemplo de uma coleção de “chaves” diferentes em torno de um mesmo personagem histórico: Jesus de Nazaré. Todas elas são chaves humanas, porque Deus não tem outra linguagem para falar ao homem.
Até aqui foi possível observar na análise dos textos sinóticos, uma preocupação constante em conceituar como o reino de Deus se estabelece entre os homens, partindo de uma análise pautada no viés politico, buscando conhecer e encontrar um Jesus histórico. Porem, ao analisar as cartas de Paulo é necessário uma nova possibilidade (chave), que nos leve a compreensão do que Paulo realmente queria tratar e a quem ele se dirigia. Paulo sem duvida foi um ser genial, capaz muitas vezes de ter uma atividade criadora fantástica, que lhe permitia formular conceitos adequados para cada situação que vivenciava ou que necessitava de sua intervenção. Paulo não foi contrario aos sinóticos, embora seus escritos sejam anteriores a estes. Certamente ele conhecia as comunidades e suas tradições de fé. Paulo conseguiu trazer para os gentios o entendimento que para eles era necessário, não o ensino do Jesus, mas sim do Cristo de Deus, não a lei judaica, mas sim o Cristo que salva pela Fé. Ao contrario do que muitos pensam Paulo não foi um teólogo dado às questões filosóficas, suas formulações embora muitas vezes filosóficas, tinham como real intensão tratar os problemas e as demandas das comunidades pelas quais passou ou fundou. A cristologia de Paulo é constantemente dividida em três períodos. Primeiro período por volta do ano 50 d.c, quando teria escrito as duas cartas aos Tessalonicenses. O segundo por volta de 57 d.c, com as duas cartas aos Coríntios, Gálatas e Romanos. Este é considerado o período central de sua cristologia e onde teria formulado seus maiores conceitos teológicos. O terceiro período aconteceu por volta dos anos 61-63 d.c, e compreende as cartas aos Colossenses e a Filemom. Porem, a análise de Juan Luís se concentra no segundo período, mais especificamente nos primeiros oito capítulos da carta aos Romanos. Esta escolha não é sem motivo, pois em suas outras cartas ele sempre escrevia procurando esclarecer ou tratar assuntos específicos de cada comunidade. Na carta aos Romanos, visto não conhecer a comunidade pessoalmente, ele teve a possibilidade de escrever um mini tratado teológico, se utilizando de termos como Graça, Pecado, Fé, Homem Interior, Lei, Justificação, Gentios, Judeus e muitos outros. Nesta carta ela não estava necessariamente preso aos problemas da comunidade local, ficando livre para tratar de assuntos realmente pertinentes a todos que partilhavam dessa nova Fé. Estes termos anteriormente citados levam a uma compreensão humanista, por esse motivo a chave para o entendimento da carta aos Romanos não é politica e sim antropológica. Paulo distingue o pecado dos gentios, dos cometidos pelo judeus. Na visão de Juan Luís o pecado dos gentios não seria o ato cometido e sim as condições que levam o ser humano a se desumanizar, quebrando assim o vinculo das relações humanas e não permitindo o estabelecimento da justiça de Deus. Nesta relação o individuo conscientemente se afasta de Deus e busca seus próprios interesses. Já os judeus por ser o povo “eleito”, deveriam sem duvida levar a humanidade para o conhecimento de Deus, porem o entendimento deles de “eleitos” os levou a serem egoístas e buscarem os “privilégios” concedidos por Deus só para eles. O fato de portarem a lei moral de Deus os tornou legalistas, e buscavam se auto justificar pela Lei. É possível observar três períodos nessa construção. O primeiro ( Adão – Moisés) e um período universal no qual o homem discerni o pecado por ter em si uma Lei interior que o conduz a Deus. Neste período ocorre outro evento importante, Deus chama Abraão. Deus não chama Abraão sendo ela já circuncidado e sim incircunciso. Neste período universal observa-se em Abraão o principio que depois será confirmado em Jesus, a Fé. Após este primeiro momento vem o segundo período (Moisés – Jesus) em que é dada a Lei aos Judeus. Neste período é estabelecida a Lei, na qual Deus da a conhecer não apenas no homem interior, mas também exterior, princípios morais. Após este período começa a era de Jesus, que compreende a unificação da universalidade (Abraão) com a moral (Moisés). Em Jesus o homem não deixa de ser pecador, porem se torna liberto do poder que escraviza o homem desde Adão. Quando Juan Luís menciona Adão ele simboliza a humanidade desumanizada, e em Jesus a humanidade livre do poder escravizador do pecado. Portanto a partir de Jesus, e alcançado pela graça de Deus o homem começa a criar relações mais humanas, e de respeito. A partir de Jesus o único critério de julgamento usado por Deus é a Fé. É pela Fé que Deus declara o homem escravo do pecado justo, sem deixar de julgá-lo. Este novo critério gera um problema para o homem escravo do pecado, uma vez que, naturalmente o homem não crê senão naquilo que controla naquilo que pode alcançar. Por esse motivo existe uma forte tendência em buscar a religião, pois esta torna o pecado calculável e tangível. Em Jesus Cristo existe a possibilidade de o homem obter uma realização plena, que permite a substituição dos mecanismos da Carne (pecado), pelo do Espirito (liberdade). A análise de Juan Luís dos sinóticos como das cartas de Paulo não se contradizem, as diferentes chaves (politica e antropológica) por ele utilizada possibilitam uma atuação nos problemas da sociedade, entendendo que o homem é quem é o principal agente social. Portanto para se estabelecer o Reino de Deus (sinóticos) é preciso que o homem humanize suas relações e seja liberto do poder do auto engano, que tem no legalismo religioso o seu grande trunfo.